#35 - A palavra exata
"i want a brighter word than bright, a fairer word than fair." (john keats)
Querido leitor,
Eram 5h da manhã e me percebi acordada. Teria uma reunião dali a três horas, mas não havia dormido um minuto sequer. O silêncio se remexia dentro de mim como um animal rastejando sobre as folhas secas caídas das árvores. O murmúrio do movimento fazia um som abafado pela terra ainda úmida enquanto via os primeiros raios de sol adentrarem o meu quarto. Precisava dormir nem que fosse um pouco, mas também precisava dizer palavra. Não havia palavra. Escrevi rapidamente antes de me entregar a um sono sem sonhos: “quero encontrar a não-palavra. não é o silêncio: é a palavra concreta”. Adormeci.
Acordei com uma hora de antecedência. Organizei, conversei, comi, limpei; o silêncio ainda rastejava em mim. Pensei em ouvir música, mas não adiantaria tentar expulsar algo que vinha de dentro — era preciso deixar o silêncio se acomodar no meu peito, recebê-lo com uma xícara de chá e ouvi-lo.
Esse silêncio é a busca pela palavra exata. O sublime manifesto em letra.
Keats também dividia essa busca pela palavra exata. Em seu Imitation of Spenser, ele passa versos e mais versos descrevendo a natureza para, na terceira estrofe, lamentar sua falta de palavra e desejar conseguir descrevê-la. Quem sabe, ele diz, a palavra exata que capture a natureza preservando seu movimento seria capaz de distrair Dido da dor na qual está imersa em seu luto, ou arrancar a amargura do rei Lear. A palavra concreta cessaria a dor, é o que postula Keats, pois seria a ação de reconexão da matéria com o sensível. Se o que buscamos é compreensão, essa é a compreensão absoluta.
A experiência é terreno do extrassensível e necessita de tempo para assentar, ser assimilada e traduzida. Em nossa vida acelerada o tempo é moeda de troca do capitalismo e o universo da experiência é empobrecido. Mas quero construir a minha vida de maneira a viver em totalidade, presente e em processo constante de nomeação do mundo. Nomear o mundo é, numa perspectiva benjaminiana, comunicar o incomunicável. É, de certa forma, tradução. Benjamin fala a partir de um viés espiritual — e eu também, se assumirmos o espiritual não como algo longínquo e esotérico, mas sim como a própria essência das coisas, que nos escapa na aceleração dos dias, mas que compõe o tecido do todo. O sensível se perde nas demandas cotidianas e, por isso, o espiritual nos parece coisa de poucos, de iluminados, de santos. Mas ele é o todo e também é nós.
Não falo de deuses ou de espíritos, falo da própria essência da vida, que já foi chamada de muitas coisas. Aqui, procuro, como tantos antes de mim, nomeá-la. Mas a palavra é artificial e não abarca o todo, então desprendo as beiradas para espiar e sentir aquilo que não posso dizer, me permitindo um silêncio que não é silêncio, o silêncio de murmúrios da não-palavra.
Nenhuma palavra dá conta; me deparei com algo maior do que o meu vocabulário. O que falamos é sensibilidade domesticada. Como expressar o todo?
Volto ao passado. Em 1º de julho de 1819, Keats escreveu uma carta a Fanny Brawne pedindo que “me escreva as palavras mais doces e as beije, para que eu, ao menos, possa tocar os meus lábios onde os seus estiveram. Quanto a mim, não sei como expressar a minha devoção a uma forma tão bela: quero uma palavra mais brilhante do que brilhante, mais bela do que bela”. Temos, tempos mais tarde, seu soneto Bright Star, “Estrela Brilhante”, no qual ele, admitindo a derrota para a palavra, tenta ao menos descrever a epifania do amor.
A palavra sempre nos derrota. É impossível nomear a subjetividade. Nossas aproximações são falhas. Há ruído na comunicação entre mim e o outro — mas esse ruído também faz música.
Ouvi o silêncio. O mundo, antes tão definido e tumultuoso, agora é pulsão translúcida e símbolo da existência em toda sua magnitude, das coisas mais carinhosas às mais terríveis. Nomear o mundo é uma experiência erótica e extática, pois a busca pela palavra exata é terreno de Eros, e esse movimento começa por nomear a si mesmo ao dar atenção ao seu próprio silêncio para entender o que ele nos diz, a ficar confortável com o não-espaço. Anne Carson (em Eros, o Doce-Amargo, na tradução de Julia Raiz) disse que “Dar atenção ao momento em que Eros olha para sua vida e compreender o que está acontecendo na sua alma naquele instante é começar a entender como viver. A maneira como Eros assume o controle sobre você é uma lição: ele pode te ensinar a verdadeira natureza do que existe dentro de você. Quando você vislumbra a verdadeira natureza, pode começar a se transformar nela”. É no elemento da atenção que foco meus sentidos. A atenção requer pausa. Simone Weil diz que o amor é atenção (e também luz, e também caminho). Sabemos o que amamos por aquilo a que prestamos atenção. É dando atenção que se reconhece o que diz o silêncio em nós. A nomeação do mundo só pode ser feita a partir do reconhecimento, e não se reconhece sem parar, estar atento e presente. Há fragilidade na tradução do extrassensível para o audível — mas o reconhecimento vai além do que é passível de se tornar palavra.
Há coisas que posso tentar descrever, mas não dizer. A palavra exata só pode ser sentida e vivida — dizê-la é tirar dela a sua exatidão. Ela habita o meio, entre uma sílaba e outra. Reconheci a não-palavra sussurrada pelo silêncio.
Houve anos de fala. Houve anos de escuta. O silêncio se assentou em mim. É preciso sentir para dizer, e é preciso escutar para reconhecer. Antes tudo era definido. Agora há o espaço entre uma letra e outra, a inspiração, que é o sopro da vida.
(Nos encontramos en el medio)
Algún que otro navajazo me he llevado de la vida
Ella a mí me desarmó y yo le estoy agradecida
(Magnolias, Rosalía)
Etc.
Nunca pensei que fosse trabalhar com tradução, mas cá estou eu iniciando um doutorado justamente sobre tradução (de latim! quem diria?!). Palavras sempre me foram importantes e, olhando em retrospecto, posso encontrar vários textos em que flerto com isso de uma maneira ou outra. É bacana perceber que esse interesse estava ali desde muito tempo, só faltava me apaixonar pela pesquisa à que agora me dedico. Gosto de pensar em tradução como uma forma amorosa de se relacionar com o texto — e com o mundo, já que acredito que tudo é tradução, mesmo o que não envolve palavras. Tem sido bem legal começar a desenvolver isso melhor e de forma mais teórica no doutorado.
Tenho ouvido muito o novo álbum da Rosalía, LUX, e pensado em como o silêncio é importante em sua construção. É um álbum com melodias exatas, cantado em 13 idiomas — o que tanto faz referência às santas que o inspiraram quanto é também uma forma de busca pela palavra exata, pois um só idioma não é capaz de traduzir o todo. As músicas que o compõem falam, de diversas maneiras, sobre a experiência extática de mulheres na busca pelo divino. Estudei um pouco dessa experiência no meu mestrado, ao falar de Dioniso e suas bacantes, e algo que me chamou muito a atenção é o silêncio associado a elas, um silêncio diferente, que precedia o estrondo dos ditirambos. Esse álbum tem me acompanhado nas minhas reflexões sobre o silêncio e como estar atenta a ele é uma forma diferente de se relacionar consigo mesma e com o mundo, olhando por entre as frestas e encontrando luz.
É fim de ano e provavelmente esta será a última newsletter antes da edição especial que encerrará 2025. Mas fica o convite para participar do Clube do Livro QC, cujo próximo encontro (no domingo, 14/12) será sobre Norte e Sul, da Elizabeth Gaskell, livro de novembro cujo encontro havia sido adiado. Lembrando que o livro de dezembro, Romeu e Julieta, de Shakespeare, será discutido no dia 20/12 (sábado), às 16h.
Com carinho,
Mia


