#33 - A vida em movimento
"se és poeta, entendes. casa é ilha. e o teu amor é sempre travessia." (hilda hilst)
Querido leitor,
Entrei no meu quarto — estava escuro. A minha mãe estava parada ao pé da cama, dobrando toalhas. Havia luzes escurecidas no teto e tudo parecia onírico. Perguntei se ela não notara nada errado — “Não, tudo normal”, ela disse. Mas não parecia. Levantei o rosto e as mãos, balançando suavemente os braços acima da minha cabeça. O movimento fez iluminar o local, com pequenos raios que me saíam das mãos, e uma tessitura gigantesca de teias de aranha se revelou, agarrada ao teto, uma moldura surrealista do meu descanso, fazendo da minha cama um semi-casulo espectral. “Isso não é normal”, eu disse. “A vida precisa de movimento. A vida precisa de vida.” Acordei ainda com teias nas mãos.
Sonhei essa cena anteontem. Há umas duas semanas, tive uma epifania e escrevi apressadamente no bloco de notas: “eu funciono em movimento”. A vida em movimento tem me deixado tonta, mas é a pulsão que chama para mais vida. É a vertigem de existir num mundo atordoado e belo.
Terminei há pouco a releitura de O Morro dos Ventos Uivantes, livro da Emily Brontë que pesquiso no meu mestrado. Já perdi as contas de quantas vezes o li, mas sei que todas me marcaram profundamente. O meu orientador, ao ler os dois primeiros capítulos da minha dissertação, me disse que não há dúvidas de que aquele é o livro da minha vida. Não há mesmo.
Existem muitos trechos desse livro que recito de cor, e um deles tem me feito companhia há alguns meses. É do capítulo IX, quando a Cathy conta para a Nelly de um sonho específico que teve, e de como ele revelou algo muito profundo para ela (na tradução de Stephanie Fernandes para a Antofágica):
— Se eu fosse para o céu, Nelly, seria extremamente infeliz.
— Pois a senhorita não se encaixa lá — respondi. — Todos os pecadores seriam infelizes no céu.
— Não é essa a questão. Uma vez sonhei que estava lá.
— Não quero saber dos seus sonhos, srta. Catherine! Já deu minha hora de dormir — interrompi de novo.
Ela deu risada e me segurou, pois fiz menção de me levantar.
— Não é nada — bradou ela. — Só queria dizer que o céu não parecia ser meu lar, e fiz das tripas coração de tanto que chorei, implorando para voltar para a terra, e os anjos ficaram tão bravos que me largaram bem no meio da charneca, no alto do Morro dos Ventos Uivantes, onde acordei soluçando de alegria.
“O céu não parecia ser meu lar”, Cathy diz, angustiada com a descoberta. Os nossos livros favoritos sempre dizem coisas a nosso respeito. Amar um livro e tê-lo como favorito não significa necessariamente que aquela é a obra mais perfeita já escrita, mas sim que há coisas em nós revolvidas durante a leitura, coisas que são como segredos de confissão entre leitor e autor. E ver-se refletido em outro tempo, quando o livro se trata de um clássico, é um sentimento poderoso de pertencimento deslocado, do sublime que habita a humanidade e que ultrapassa as fronteiras do tempo e da geografia. Li esse livro pela primeira vez aos 17 anos, embora o tenha observado de longe desde os 9, ainda que fosse proibida de lê-lo até ser mais velha. Desde então, o li diversas vezes, e embora eu siga não gostando de Cathy Earnshaw, ao ler esse trecho, posso entendê-la, pois eu também pensava algo parecido na infância.
Fui criada em uma família religiosa, e lembro de ter dito várias vezes, enquanto crescia, que o céu não parecia um lugar onde eu gostaria de ir, pois morreria de tédio e tristeza lá, longe dos campos e árvores e vales e canções da Terra, que é tão imperfeita, e, por isso mesmo, tão bonita. Me incomodava particularmente a ideia de não poder cantar nada que não fosse dedicado a um deus, não poder dormir e sonhar, não poder correr pelos campos e conhecer o novo que se revela a cada dia. Falar isso era considerado uma espécie de blasfêmia, e ouvi muitos sermões dentro de igrejas, para tirar essas ideias da cabeça — em vão; continuo não vendo um deus onipotente no céu, mas sim nas árvores, nos pássaros, no sussurrar do vento nas folhas e na tempestade que cai na terra. Não existe nada mais sagrado do que isso para mim, e a ideia de ser separada da sinfonia da natureza que tanto amo para viver uma eternidade em paz e adoração no céu me perturbava.
E o que me perturbava era, agora entendo, ser uma coisa para todo o sempre, ser, sem perspectiva de mudança, a mesma pessoa. Viver eternamente — sim, mas permanentemente a mesma.
A vida existe em movimento — entendi ao vivê-la. Entendi a menina que fui, aflita com a ideia de despedir-se um dia do movimento da terra, de ter de abandonar tudo que é natural e selvagem e bonito e imperfeito para viver uma eternidade de perfeição e quietude. Lembro de dizer que, ainda que isso acontecesse um dia, tinha certeza de que daria um jeito de voltar, de que não estaria satisfeita. Anos depois, ao ler O Morro dos Ventos Uivantes pela primeira vez, me senti compreendida.
Eu quero a eternidade do agora.
Faz meses que não apareço por aqui. A vida em movimento tem me pegado pelo braço e me levado a lugares inesperados. E quero estar presente na minha vida.
No final do ano passado, escrevi no meu bloco de notas que “estou matando uma versão de mim que eu queria preservar”. Mas a vida é movimento. Não podemos ficar estáticos, ainda que queiramos manter tudo como está. Passei a tirar os fones de ouvido quando estou no ônibus, a escutar o barulho da rua, os sons das pessoas, a observar o mundo ao meu redor, sem tentar escapar dele, mas lembrando que sou parte daquilo que se chama vida. O exercício da presença é desafiador, mas é o que me manteve sã. Eu estou aqui e estou agora.
Aconteceu muita coisa, e o que me espanta é eu conseguir ver beleza em tudo, mesmo nas coisas ruins. Eu ia dizer que tenho vivido nos intervalos, mas não é verdade: eu tenho vivido tudo, mesmo quando doente. Tive um problema nas cordas vocais em janeiro; em fevereiro, pneumonia; no final de março, uma pequena cirurgia e sepse, que quase me abreviou o retorno à casa dos suspiros. Nada disso me parou de fato, embora tenha desacelerado a minha caminhada, pois o processo de recuperação é lento e envolve mais do que medicação. Lembro de estar de cama, semi-consciente, e acordar, mal conseguindo me mexer, e pensar que sim, aquilo era terrível, mas que mais do que um ficaria bem no futuro, eu estava bem no agora, pois estava viva e podia sentir — dor, naquele momento, mas também a memória de todos os atos sem arrependimento até aquele instante, pois não me arrependo de nada que é feito com amor, e eu tenho vivido amando tudo da forma mais inteira que posso. Deixei as expectativas de lado e decidi dormir para dar tempo ao meu corpo para se curar.
2025 não tem me deixado esquecer de que eu tenho um corpo, e eu sempre quis ser como o vento: livre e incorpórea, apenas sentida, mas não vista. A consciência corporal veio através de doenças, mas também do ser vista por outros. No início do ano, tive um sonho no qual eu estava flutuando no cosmos, no meio do grande infinito escuro repleto de estrelas e planetas e galáxias ao longe, tão longe que minha mente não consegue acompanhar o processo matemático das distâncias. Lá estava, quando um deus que era o todo me falou para eu não fugir de ser vista, não ter medo. Se era fruto do meu próprio inconsciente ou algo de fato místico, não é relevante: também somos sagrados, e levei o conselho a sério. Não tenho fugido, por mais que por vezes o queira. Tenho vivido o presente de forma corporalmente consciente.
Quando ainda estava em medicação por causa da sepse, foi ao ar uma reportagem para a qual fui entrevistada, na Zero Hora, falando da importância de ler mulheres clássicas. Qualquer pessoa que já passou meia hora comigo sabe que eu não gosto de ser vista, mas tenho seguido o conselho do sonho e não tenho fugido, então aceitei ser entrevistada e fotografada para o jornal. Naquele dia, não consegui um exemplar do jornal, que só me chegou na semana passada. E embora eu siga sendo uma pessoa tímida, fico feliz de compartilhar o meu trabalho aqui no QC e a minha paixão pela literatura, especialmente pela valorização da escrita de mulheres, algo a que tenho me dedicado há uns bons anos.






Também fico feliz que isso tenha me trazido coisas boas, novas pessoas, convites e oportunidades. A vida realmente está em movimento, e não sei para onde ela irá daqui, mas sei que viver o momento presente me fez lembrar da menina que fui, correndo por entre as árvores, com medo de perder este mundo enorme e todas as pessoas e animais e rios e arte que aqui existem.
Não vou perder nada do agora.
Esta edição faz parte do Newsletteraço, uma iniciativa de escritores de newsletter no grupo do qual participamos. Dessa vez, todo mundo escreveu sobre memória, infância e sonho — cada qual à sua maneira. Não ia participar, pois estou na reta final do mestrado e preciso entregar mais dois capítulos da dissertação em pouco tempo, porém tive o sonho que descrevi no início do texto, e senti que tinha ~~algo a dizer (além de que estou com saudade de escrever aqui, e se a vida é movimento, a minha também é movimentar palavras). Bem, está dito. Na lista abaixo, te convido a conferir os textos dos meus colegas de newsletter.
Participam desse Newsletteraço as seguintes publicações:
Victória escreve a resenhas que ninguém pediu
Lethycia Dias escreve a Uma mulher que escreve
Leon Nunes escreve a O Substack de Leon
Cadu Carvalho escreve a Tipo Aquilo
Júnior Bueno escreve a cinco ou seis coisinhas
Fernando Alves escreve a Futebol no Fim do Mundo
Lívia Reis escreve a Colcha de Retalhos
Danilo Heitor escreve a Antes do fim
Paula Maria escreve a te escrevo cartas
Denise Gals escreve a Aprendiz de Escritora
Karine Canal escreve a Kverso
Patricia escreve a Uma com a Terra
Envio esta edição, mas ficarei algum tempinho sem enviar outra, pois o meu foco agora é finalizar a minha dissertação e defendê-la. Porém vocês sempre podem me encontrar no Clube do Livro QC — no domingo, dia 04/05, conversaremos por videochamada sobre a Ilíada, de Homero. As informações estão todas no Instagram do QC. Também aproveito para compartilhar que o meu segundo livro, Na casa dos suspiros, finalmente está disponível no catálogo da editora. Vocês podem encontrá-lo neste link.
Com carinho,
Mia




A analista junguiana em mim adorou ler seu sonho e a conclusão que vc tirou dele ainda mais quando muitas pessoas acham que prestar atenção nos sonhos é besteira. Já tive sonhos com mensagens diretas tbm, assim como esse seu, e tbm já sonhei que estava solta no cosmos (fiquei impactada rs).
Gosto muito de ler seus textos, é quando separo um tempinho e me sinto como antigamente quando a gente lia jornais e revistas.
Adorei! Esse grupo de news é aberto? Adoraria participar!