#32 - Azul
"não precisa do destino fixo da terra, ele que, ao mesmo tempo, é o dançarino e a sua dança." (cecília meireles)
Querido leitor,
É como quando acordamos com a mão dormente. Nos damos conta de que estávamos numa posição estranha e acabamos dormindo com o peso do tronco em cima do pulso. Tentamos, sonolentamente, mover a mão. Tocamos o lençol, mas algo está diferente — é o mesmo lençol que colocamos na noite anterior; ainda assim, a textura não corresponde ao que sentimos antes. Com alguma dificuldade, erguemos o braço e tiramos a coberta de cima do corpo, mas ela nos escapa, sendo agarrada por um dedo enquanto os demais quatro habitam outra dimensão. Mexemos o travesseiro para um lado, mas ele foi para o outro, pois nossos dedos não nos obedecem, experienciando o mundo como se tocassem em algo pela primeira vez e não soubessem o que fazer com o objeto que têm em mãos. Levantamos mesmo assim, sabendo que a dormência vai passar.
É como tentar agarrar um sonho sabendo que se está acordando.
Passei dias escrevendo um texto que não queria sair.
É engano de quem não escreve achar que o escritor controla suas palavras. Algum controle há, mas está longe de ser aquilo rígido e estruturado como se imagina. Escrever é tradução daquilo que sentimos, daquilo que vivemos. Nosso vocabulário dificilmente dá conta do subjetivo, o inefável nos escapa — ainda assim, é através dele que conseguimos nos comunicar.
Eu fiz 4 anos e meio de Comunicação para entender que o que me importa comunicar não está no discurso preparado. Sei das teorias de texto, sei estruturar a fala para atingir um objetivo. Mas não quero. Se não for genuíno, eu não quero. Aprendi isso em 2019 e tenho vivido isso desde 2020. Eu posso fazer todos os discursos bonitos e controlar todas as palavras que conheço. Posso fazer magia com as sílabas e rima com substantivos. Ainda assim, nada disso teria significado se não viesse de um lugar genuíno. E essa honestidade não é encontrada no verso estruturado, mas sim no abrir mão do controle. Só posso ser surpreendida se não estiver esperando, se não estiver cogitando, se não estiver ansiosamente tentando controlar tudo ao meu redor, inclusive o discurso.
A tentativa de controlar o discurso advém do medo. Medo de não conseguirmos o que queremos e medo do que vão pensar de nós. É um medo inútil: ambas as coisas estão fora do nosso controle. Podemos nos enganar a respeito disso por algum tempo, mas um dia entendemos que a vida é feita das subjetividades alheias e por uma teia muito maior e mais complexa do que poderíamos tecer sozinhos. É a pluralidade que torna tudo tão bonito — mas é essa mesma pluralidade que nos pede para abandonar o controle e viver. Você não é pura emoção, mas suas escolhas são mais guiadas pelo reino dos sentimentos do que se gostaria de admitir. Abrace o inexplicável que está além das portas do controle e viva.
Esta edição é especial: é uma carta para a minha amiga secreta. Este é o 3º ano que participo desse grupo incrível que sempre me faz descobrir pessoas e escritas fascinantes, e desta vez não foi diferente. A minha amiga secreta é a Bruna, da newsletter De dentro para fora. A partir daqui, leitor, você estará lendo a correspondência alheia.
Querida Bruna,
Tu falaste que tenta fugir da tua profundidade — e logo te perguntaste se não é da tua imensidão que foges. Já passei alguns anos me perguntando isso.
Mary Oliver escreveu: “No início, eu era tão jovem e tão estrangeira a mim mesma que eu mal existia. Tive de ir até o mundo lá fora e ver e ouvir e reagir a ele antes de entender quem eu era, o que eu era, o que eu queria ser”. Lembrei disso ao te ler. Lembrei disso ao olhar para o meu ano.
Tenho tido muita dificuldade para escrever porque a palavra escrita não traduz o que sinto. Essa imensidão, essa profundidade. Lembro de Mallarmé, o poeta simbolista francês do século XIX, que encerra seu — grande — poema repetindo a mesma palavra: “L’Azur! l’Azur! l’Azur! l’Azur!”. Tu ilustraste o teu texto com a cor azul. Me pergunto se é coincidência que nos voltemos para essa cor quando tudo parece grande demais. Mas essa é a cor das grandezas não suficientemente traduzidas em palavra: o céu, o mar.
Numa carta a Cazalis, Mallarmé diz que “Esses últimos meses têm sido aterrorizantes. Meu Pensamento pensou por si mesmo e chegou a uma Ideia Pura. O que o resto de mim sofreu durante essa longa agonia é indescritível”. Em seguida, escreveu seu poema L’Azur.
O pensamento que se pensa por si mesmo. Acho que ele traduziu muito bem o processo de descobrir algo a respeito de si e do mundo e ser profundamente abalado por isso. Quando as nossas certezas se desfazem em coisas simples, pode ser difícil lidar com o que está diante de nós.
Eu nunca gostei da cor azul.
Amarelo era a minha cor favorita na infância. Eu queria tudo amarelo: roupas, calçados, fronhas, cadernos, o bauzinho onde guardava lembranças. Eu olhava o céu e ficava encantada com a ideia de um sol amarelo bem grande lá no alto, me olhando. Azul sempre me pareceu simples demais, sério demais. Amava olhar para o céu, mas não queria pensar no azul — imaginava um céu cor-de-rosa cujas nuvens fossem feitas de sonhos. Pensava nos deuses lá em cima, iluminando tudo através dos raios de sol, e cantava.
Comecei a sonhar com a cor azul este ano.
Num sonho, me vi usando uma capa azul por cima de um vestido muito antigo. Era noite e eu carregava um cesto nas mãos. O azul me protegia dos olhares alheios e era também símbolo de algo que todos ali entendiam. Tirei serpentes do cesto e apliquei uma cura em alguém. Noutro sonho, me vi pintando o meu quarto de azul. Por que eu faria isso, me perguntei algumas vezes. Comentei com uma amiga o quão estranho era aquilo. Estávamos em maio e as enchentes invadiam o estado. Ainda era a primeira metade do mês e os danos aqui não tinham sido tão terríveis até aquele momento, ainda me enganava dizendo que não teria de fazer uma reforma na casa quando tudo passasse, ainda me enganava pensando apenas no dia que estava vivendo, tentando não me preocupar com o que eu perderia após aquele mês. Mas eu sabia: os estragos já eram grandes e seriam ainda maiores. Não tardou para que junho se transformasse em julho e ficasse cada vez mais evidente a necessidade da reforma, que terminou só agora, há poucas semanas. O quarto teve de ser pintado, é claro. De azul, como no sonho.
Li muito sobre a cor azul desde então. Nem sempre intencionalmente, mas parecia que em todo lugar — em livros, filmes, séries, músicas, conversas —, lá estava ela. Numa série documental, as pessoas envolvidas nos acontecimentos relatados haviam comprado uma casa nova e encontrado um cômodo totalmente pintado de azul, um azul forte, expressivo, nada próximo do estilo estadunidense padrão. Aconteciam coisas estranhas na casa e, após uma investigação para entender quem morava lá antes e por que aquilo tudo se passava, descobriram que o azul foi escolhido pelos antigos moradores por ser uma cor de proteção espiritual.
Algumas culturas acreditam nisso e usam o azul de forma ritualística. Outras o associam à tristeza. Temos o emblemático Blue, da Joni Mitchell, como exemplo, um álbum voltado aos temas melancólicos do viver de uma jovem mulher — e um dos meus álbuns favoritos, embora eu não tenha vocação para a tristeza, tampouco veja o azul dessa maneira. Maggie Nelson dedicou um livro inteiro ao azul — Bluets. Nele, ela o associa ao amor, ao sagrado, a estar embriagado. Mas principalmente ao amor. Ela diz que se apaixonou por uma cor — e passa o livro inteiro fazendo aforismos e reflexões sobre o azul. Não cheguei a me apaixonar — mas olhando para minha recusa ao azul desde a infância, entendi coisas ao meu respeito que eu evitara até então. O que eu chamava de seriedade na infância era a carga de decisão que o azul parecia ter. Uma aura de responsabilidade — não necessariamente associada ao mundo adulto, como se pode pensar daquilo que uma criança via. Apenas uma sensação de imensidão, pois os maiores planos da natureza são azuis, e são também incognoscíveis, pois nem toda a ciência de que dispomos conhece averiguar as profundezas do infinito. É muito sério, é muito decisivo, é um espelho da nossa limitação. Ao mesmo tempo, era uma cor simples — a cor do céu, a cor do mar. Sempre tive medo do mar.
Mas durante as minhas incursões azúleas, escrevi o meu primeiro romance — uma história sobre uma jovem que tem um relacionamento muito particular com o mar. Ainda não sei o que vai ser dele, mas pude fazer as pazes com o infinito das águas enquanto o escrevia. Entendi o meu medo e o abracei; agora, somos amigos, meu medo e eu, as águas e eu, o azul e eu.
Num diário de mais de 10 anos atrás, escrevi que entendo os sentimentos através da escrita. Continua sendo verdade, embora não de todo. Mas entendi por que o azul sempre me assustou: para mim, o azul representa a quietude. O azul é o incomensurável. É aquilo que é tão imenso e tão tranquilo que não necessita de palavras. É o limite entre o eu e o tudo. É o que abraça a Terra em todas as direções — no ar com o céu, que Mallarmé passou a chamar apenas de l’azur, e nas águas, que fazem parte da própria estrutura planetária. O vento tem uma linguagem que não sabemos, mas que entendemos. As ondas também. Que palavra comporta o ressoar das ondas? Eu sou e sempre fui alguém com muitas palavras — mas o que fazer quando a palavra não existe? Quando não há necessidade de fala, pois tudo já está ali, sendo vivido?
Isso é o azul para mim. Fiz as pazes com essa imensidão que não necessita ser explicada. Toda explicação existe a partir de algo, mas é também fonte criadora de outras coisas que, por sua vez, poderão ser explicadas um dia, criando um ciclo que se retroalimenta. Mas eu não quero explicar nada. Eu só quero viver essa imensidão.
Talvez eu sempre tenha tido medo de chegar ao momento de encarar a limitação da palavra e aceitar que a imensidão existe e é tudo. Não precisa ser explicada, não precisa ser traduzida, não precisa — apenas é.
Também quero a simplicidade do existir sem a necessidade do explicar.
Que existamos, então, querida amiga secreta. Sem explicações, apenas nos permitindo navegar no azul infinito.
Abraço!
Para encerrar (a edição, o ano), um trecho de Bluets (em tradução livre) que acho particularmente bonito e que tem voltado à minha mente com frequência desde que o li pela primeira vez:
“De qualquer forma, eu não estou mais contando os dias.
Quero que você saiba, caso algum dia leia isto, que havia um tempo em que eu preferiria ter você ao meu lado do que qualquer uma destas palavras; eu preferiria ter você ao meu lado do que todo o azul do mundo.
Mas agora você está falando como se o amor fosse uma consolação. Simone Weil avisou o contrário. ‘O amor não é consolação’, ela disse. ‘Ele é luz.’
Muito bem, deixe-me tentar reformular. Quando eu estava viva, queria ser uma estudiosa não da espera, mas da luz.”
(Maggie Nelson, Bluets)
Esta edição foi em parte carta para a minha amiga secreta, em parte, despedida do ano. Deixo aqui o agradecimento a quem acompanhou o QC durante 2024 e segurou na minha mão em momentos difíceis. Também agradeço à amiga secreta que me tirou, a Luciana Florenzano, e me escreveu uma belíssima carta falando sobre o labirinto de Ariadne.
Feliz 2025, queridos!
Com carinho,
Mia



Sensacional... Levei para o coração. Porque da mente quero apenas o silêncio, para poder contemplar em paz o incomensurável azul com minhas emoções <3
Que lindo!!!